Por que dar à luz deixou de ser um momento bonito e virou uma batalha ideológica?

Há quem diga que dar à luz a uma criança é o momento mais sublime da vida de uma mulher. Isso não quer dizer que ela nasça somente pra parir, que esse seja o propósito da mulher no mundo. Reprodutivamente falando, sim, só a mulher pode realizar essa tarefa, mas não é disso que estamos falando.

Não há qualquer erro em sentir-se realizada dando à luz ou cuidando dos filhos. Assim como não há qualquer problema em não desejar ter filhos e não ter interesse em crianças. É disso que se trata a liberdade: escolher o que quer e o que acha ser melhor pra sua vida, sua liberdade individual, de maneira que não interfira nas liberdades dos outros.

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Um debate interminável sobre maternidade é a questão do parto, se ele vai ser cesáreo ou normal/natural. Essa própria divisão semântica já dá a entender que a cesárea é uma coisa monstruosa. Apenas imagine quantos milhões de bebês já foram salvos de um destino cruel por terem nascido através de uma cesárea. Assim como qualquer área da medicina, a cesárea é um procedimento que surgiu com o desenvolvimento de técnicas e instrumentos para melhorar a qualidade de vida das pessoas. O problema é o uso que se faz desse instrumento.

O Nerdpai postou sobre um caso onde um Juiz atribuiu a responsabilidade da morte de um bebê durante o parto ao médico obstetra. Segundo ele, a decisão é técnica e cabe ao profissional escolher qual é o método apropriado para cada caso. O que o amigo magistrado não percebeu é que parir não é uma questão meramente técnica. Dessa forma reduz-se a mulher a um mero receptáculo, um simples tupperware. Qualquer pessoa sabe a transformação que a mulher sofre durante a gestação. Física e psicologicamente ela nunca mais será a mesma pessoa. Portanto, alegar que a decisão é meramente técnica é um absurdo.

Essa questão envolve muito mais coisas do que uma mera decisão técnica. Algumas delas, são:

  • Médicos do setor privado recebem muito pouco por um procedimento de parto normal. É mais “lucrativo” (entre aspas, já que médicos não são empresas) fazer uma cesárea, que irá tomar muito menos tempo, do que ficar até 24 horas acompanhando a grávida num trabalho de parto;
  • Os médicos recebem pouco principalmente por conta dos planos de saúde. As pessoas contratam planos de saúde porque o atendimento público é precário. Dessa forma, as grandes empresas de prestação de serviços de saúde praticamente ditam quanto cada procedimento deve valer. Isso traz consequências como essa de médicos obstetras não terem interesse em realizar partos normais/naturais;
  • Outra consequência é que alguns médicos (não todos, mas uma quantidade razoável) acabam sugerindo, influenciando e trabalhando a cabeça das pacientes para que elas optem pela cesárea. As “vantagens” são principalmente não sentir dor, parir mais rapidamente, sofrer pouco, etc.
  • Muitas mães e futuras mães acabam optando por conta própria pela cesárea, assim conseguem se preparar para a data sem serem pegas de surpresa. Conseguem preparar aquela festa do nascimento com comida, bebida, praticamente uma festa de aniversário (isso virou uma indústria). Algumas mães antecipam ou postergam o parto até mesmo por conta do signo da criança;

Além de muitas outras coisas. O que leva a um ciclo de Saúde precária > busca pelo setor privado > Cartelização dos procedimentos médicos > médicos mal remunerados > opção por não realizar certos tipos de procedimentos > indústria da cesárea.

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Todas as partes tem parcelas de responsabilidade nessa questão. Mas se uma mãe pode e deve ser livre para escolher que tipo de procedimento prefere, o médico também tem o mesmo direito. No meu ponto de vista, esse quadro só pode ser realmente mudado pelo Governo, com investimento em saúde pública. No SUS, os médicos tem a orientação de sempre considerar o parto normal como primeira opção. Aí, é claro, se isso vai ocorrer ou não depende do andamento do trabalho de parto. O papel do médico é sim orientar e explicar aos pacientes sobre cada procedimento e alertar sobre possíveis problemas. Eu sempre digo que o melhor parto é o que mãe e filho saem saudáveis. Em alguns casos será o parto normal, em outros será a cesárea.

O juiz que imputou a decisão como meramente técnica e inteira do médico foi infeliz em sua escolha, conforme já expliquei. Dados de 2011 mostram que no SUS em torno de 40% dos partos são cesáreas. Um índice alto, mas aceitável e possível de ser melhorado. Já no setor privado, de cada 10 partos, 9 são cesáreas. A diferença é gritante e fica claro onde atacar o problema.

O que muitas mães não sabem é que o trabalho de parto é, inclusive, mais saudável para o bebê. Muitas mulheres dizem que não aguentam o sofrimento, que dói, que não estão preparadas, mas elas são, sim, capazes. A natureza preparou seus corpos para isso. Durante o trabalho de parto, enquanto o processo ocorre e o bebê vai se encaixando, uma série de hormônios são liberados pelo corpo da mulher com funções especiais como a prolactina, que ativa o instinto materno, as endorfinas, que criam o laço de dependência e cuidado entre mãe e filho e até mesmo hormônios que ajudam a amadurecer o sistema respiratório do bebê. A cesárea (seja por qual motivo for) priva a mãe e o bebê de tudo isso. E ainda, no parto normal, se tudo correr bem mãe e filho podem ir pra casa no dia seguinte. Na cesárea, são dezenas de pontos internos que levam semanas pra cicatrizar e privam a mulher de suas plenas condições físicas durante um bom tempo. Além, é claro, de ganhar uma bela cicatriz que mexe muito com a auto estima.

A decisão final cabe sempre a mãe, com participação direta do pai e do médico. O médico, nesse caso, deve orientar a gestante da melhor forma possível para muni-la com as ferramentas para tomar a melhor decisão possível. Basta lembrar que o objetivo maior é um parto saudável. O pai é uma ponte entre a razão e a emoção. Cabe a ele pensar nos momentos em que a mãe estiver desesperada, cansada, nervosa, etc.

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Finalizando, uma coisa que tem que ficar clara é o seguinte: não importa o que grupos a favor do parto normal digam, não importa o que defensores da cesárea falem, ninguém é mais ou menos mãe por optar por A ou B. Assim como há péssimas mães que pariram normal há mães maravilhosas que tiveram seus filhos por cesárea. Definir a relação mãe-filho apenas pela forma como a criança veio ao mundo é de uma arrogância que poucas vezes vi na vida. Um pouco mais de humildade também vai bem.

P.S.: eu sei que é difícil ler um homem falando sobre essas coisas, mas além de pai e marido, minha esposa é Médica, Pediatra e Neo Natologista que trabalha diariamente com UTI Neo Natal e sala de parto. O pouco conhecimento que tenho vem dessa convivência e conversas que temos diariamente.

O parto de João foi cesárea e o de Tomaz foi normal. Depois de ter Tomaz, Nara percebeu que se tivesse feito um esforço maior (e eu tivesse insistido mais e prestado mais atenção) poderíamos ter evitado a cesárea no caso de João.

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